Costumam dizer que eu tenho jeito para fazer comparações, costumo encontrar metáforas para quase tudo, até mesmo para o que já é, por si só, metafórico.
Qualquer pessoa é capaz de atribuir uma metáfora para a vida, lembrei-me agora de uma: calçada.
E que boa comparação fui eu fazer, sou português, somos peritos em calçadas, em desenhá-las, torná-las mais belas, originais... Mas se a vida é feita de obstáculos seria uma calçada cheia de buracos, e é. Mas é também feita de momentos, de decisões, de pessoas, ou seja, de pedras. Porque para uma calçada são precisas pedras.
Continuando com este paralelismo, é engraçado percebermos como certas pedras se transformam, se assim o permitirmos, em calceteiros, quando para além de marcarem o nosso percurso, o moldam, para além de serem apenas pedras na calçada, se tornam figuras, imagens...
Apesar de curta a minha calçada já teve pedras que se tornam calceteiros, que alegram e alegraram a minha vida, as quais eu deixei que moldassem o meu destino e desprezei algumas, errei com algumas, e mudei-as também, com as minhas pegadas, porque temos esse efeito que não podemos evitar, o de pisar inevitavelmente as pedras da nossa calçada, a forma como as pisamos é que nos compete decidir e eu errei e errei várias vezes ao calcar mal certas pedras e tentar nem deformar ligeiramente outras. E errei das duas maneiras, por incrível que pareça, tanto pisei mal as pedras que me queriam bem, como pisei suavemente as que eram apenas mais umas no chão.
É a vida não é? É o que me tentam dizer quando eu tento ainda remediar algum sulco maior que possa ter causado. Eu digo-o também, ironicamente, mas digo-o "É a vida", como que tentando convencer-me a mim mesmo que não podia ter feito nada para o evitar e que agora nada há a fazer para o arranjar.
Eu acho que há sempre algo a fazer, sou português, temos os melhores calceteiros do mundo.
Não acho que seja uma pessoa com azar, a minha calçada tem ainda uma característica interessante, que espero nunca a vir a perder totalmente, se bem que sei que com a idade se vai denegrindo, que é a de constantemente à medida que avanço no caminho pedras novas vão aparecendo, pedras que me fazem acreditar que o caminho vai ser bom daqui para a frente, pedras que quero que se transformem em calceiteiros, algumas erradamente, talvez, mas que quero arriscar para ver como fica a figura que desenharão no chão da minha vida.
Sou um privilegiado, posso dizê-lo, porque com um passadiço tão curto já tenho o privilégio de ter belos desenhos no chão que já pisei, uns já acabados, outros que cada vez se adornam mais, cada vez me surpreendem mais, que não me desiludem, que desenham como querem e ainda me aconselham quais pedras eu devo pisar, para que não tropece simplesmente. Tento agradecer-lhes todos os dias, não simplesmente por palavras, mas sendo calceteiro dos seus caminhos também, sem a "arte e o engenho" mas com tudo aquilo que tenho para lhes dar.
Todas as pessoas que passam pela nossa vida, deixando boas ou más marcas, são pedras da nossa calçada e cabe a nós escolher o caminho mais acertado, escolher as pedras que queremos seguir e segui-las.